31/01/2020

Extra! Extra!

O plantão da poesia informa:
"Avião tropica em passarinho."

O repórter reportou:
"Graças ao aviso de um menino, ninguém se feriu."

A comitiva de repórteres
forçou-se ao local do pouso forçado
onde já se encontravam os ortopedistas,
os médicos dos pés, todos de pé
e ortopedando o avião.

"Graças ao menino, o medo dos passageiros foi controlado
e não foi preciso chamar os oculistas, os médicos do..."

"Deus me livre!"
Exclamou um cantor que viajava no avião e estava jururu.
Jurava de pé junto que juntava um na mão pra não mexerem nos seus óculos.

O menino foi eternizado nos noticiários:
"No exercício de ser criança, novo herói por cinco minutos faz todos esquecerem do último."

Vejam só, mas quem diria
que quem salvaria o dia seria a poesia?

[Nota de rodapé: o passarinho não foi passível de entrevistar,
pois foi passarinhado pelos gatinhos do piloto Ferreira Gullar.]

O Ministério Adverte

Poesia é como cerveja:
a primeira vez que se toma,
tem gosto de
"por que alguém bebe isto?!"
Mas quando se vai poemando,
a LíNguA vaI muDanDo
e o sabor vai surgindo,
e de repente você pode se ver, haha, embriagado
(— Você está bebaaaaaço. Eu não. Olha o 4. Ops!)
dizendo coisas divertidas,
palavras dos cotovelos,
coisas sem sentido,
especialmente aos que estão sóbrios
e podem, é, hum, é, podem,
hum, achá-lo, (h)um(,) chato(!)
inc on ven i en te
(— Para com isso!!!)
até que se embriaguem.
Então tudo é risada.
(— Aquele poema!!! Hahaha.)

A poesia é como a cerveja,
se alguém te conta o que se sente
quando se embriaga e ri,
você não experimenta a coisa em si.
Só ao experimentar a coisa em si,
você experimenta a coisa em si
e só ao experimentar a coisa em si,
você experimenta a coisa em si
e só (— A gente entendeu, muda o disco.)
...então "experimenta"
(— Do verbo experimentar?)
do latim! experimentare:
ou seja, experiencia,
ou seja, vive,
ou seja, vivencia,
ou seja, — ria, seu chato!
É.
Você.
Você aí.
... vivenciar é diferente
de entender, se é que (me) entende.
Entende?
Pois não entenda,
desentenda,
e viva.

Vivencia!

E relaxe pois, todavia,
a poesia não é como a cerveja:
se dirigir, não beba,
se poetar, regozija!
Não poeme-se com moderação,
meta a boca na botija!

29/01/2020

P'ra Esta Alma Escura e Fria

Cor é luz.
Sem luz, não há cor.
Não é só que não se vê
— Sem luz, não existe cor.
Não é que tudo é escuridão,
Não é que tudo é negro, isso não!
É que tudo é qualquer coisa, menos cor.
A coisa cor é uma ilusão.
Uma ilusão dependente dos olhos,
Embora também da luz,
Só com a ajuda do iludido
É que a ilusão se produz.
E se a vida é colorida
Ou se a vida é cor de rosa,
Se o menino veste azul
E a menina veste rosa,
Se você está no vermelho
Ou cor mais pecuniosa,
É que há luz
E(!)
Ilusão.
E convém não se iludir
Com o que faz mal ao coração,
Que não tem qualquer razão
De ser ou existir
Em um mundo justo e são.

Sete em cores, de repente
O arco-íris se desata
Na água límpida e contente
Da colorida mata...

Poema de Vinícius, colorida citação,
esta sim é ilusão que faz bem ao coração.

Subversiva

A carta fora do baralho ensina
Que é possível ser carta
E não jogar o jogo.

Cuidado com a carta fora do baralho!

20/01/2020

Elucubrações (Despóstumas de Desbrás Cubas)


A natureza do saber
é tal que se pode saber
que o saber sempre pode
deixar de ser.

De repente,
um novo saber surge
que derruba o que anteriormente se sabia
e tudo
que
Havia(!)
c
a
i
ao chão.

E o (velho) saber, ou conhecimento, é substituído, então.

Então(!)
estar de bem com o conhecimento é,
por conseguinte, estar de bem com a possibilidade
(de ver
dade)
de ser corrigido,
des
mentido
pelo
des
conhecido
que (sim,) pode
vir
a ser
conhecido.

É estar de bem com a possibilidade de estar
errado,
enganado,
equivocado
e estar de bem com
aqueles vinte e oitenta por cento das chances
que o Pareto notou no princípio
ou, ao menos, (a princípio,)
com o
zero
vírgula
zero zero,
zero zero zero
zero zero zero zero
zero zero zero zero zero
zero zero zero zero zero zero
zero zero zero zero zero zero zero
zero zero zero zero zero zero zero zero
zero zero zero zero zero zero zero zero zero
zero zero zero zero zero zero zero zero zero zero
zero zero zero zero zero zero zero zero zero zero zero
zero zero zero zero zero zero zero zero zero zero zero zero
zero zero zero zero zero zero zero zero zero zero zero zero zero
alguma coisa
por cento
de chance de estar errado.

Já a natureza da fé, eu a chamarei de fé, é, eu direi que é, tal que se está de bem com crer naquilo não se pode saber porque não pode ser testado, e o que não pode ser testado não pode ser descoberto como estando errado, enganado, equivocado, desacertado, porque não pode, pois é, ser testado, e você só fica de bem com não poder saber e pode se dedicar mais a crer (e convém dizer isto assim rápido porque combina, você há de entender) (e convém não muito discorrer e detalhar porque idem, você também há de entender).

Então,
pois, então,
saber é ver pra crer,
enquanto fé é crer sem ver.

.
.
.

Se isso é verdade?

Ora,
fique à vontade
para crer ou testar
para sabcrer ou descreartar
a hipótese.

E se
e quando
o fizer, se fizer,
seja então bem-vindo
à "cer-" ou "incer-"
teza eterna
enquanto
dure.

Alguns Poetas Só Querem Ver o Circo Pegar Fogo

O comedor de fogo do circo
tem uma fome muito estranha,
no seu almoço não tem comida,
e a refeição é uma façanha,
qualquer pessoa fica aflita,
ao ver loucura assim tamanha!

Ele não come o algodão-doce,
ou a pipoca, cachorro quente,
nem paçoquinha, e nem o quentão...
Fome disso? Ele não sente!
Até porque, aí é sede,
quentão é um caso diferente.

Mas é uma fome bem parecida,
já que o quentão se bebe bem quente;
e a fome do comedor de fogo
é fome de uma coisa ardente:
mas não é pinga(!), é de fogueira,
o fogo que só queima a gente.

Eu me pergunto se ele tem sede
quando termina essa refeição...(?)
E será que ele só queima a língua
quando ele fala um palavrão?!
Eu só sei que acho que isso tudo
deve dar muita queimação!

Soltar um pum deve ser fogo!
O seu penico, uma chaleira.
Sua mulher deve ser doida!
Ou uma baita duma bombeira!
Sua mãe devia dar picolé!!!
Em vez de leite na mamadeira!

O comedor de fogo do circo
só pode estar de brincadeira!

18/01/2020

Será Que "Printa"?

Vou escrever um poema
e colocar nos créditos:
Carlos Drummond de Andrade
In Poesia da Saudade
Ed. Deus do Olimpo, 1877

Vou largar na internet
só pra ver
se pinta
o sete.
Será que pinta?

Não sei
mas não pode ter
um montão de um monte de coisa escrita!
Não é popular hoje em dia
dizem.

Você tem que virar — celebridade
fazer seu nome na comum'nidade
pra depois escrever
porque aí todo
mundo pode
ler
antes não
dizem.

A propaganda é a alma do poema
do livro
da arte
do sistema
sem ela, não tem pão
no prato da mesa do poeta
dizem.

Vou fazer um poema
e colocar nos créditos:
Clarice Lispector
In O Que Você Diz Não Importa
Ed. Noz D. Din-Eiro, 2020

E pintar de porta em porta
só pra ver.

Será que printa?

Reflexão (ou Meia-Volta Volveu)

Qual o contrário do
in
fi
ni........................
(...)
...................to(...)
?

"É o finito."

Mas
Se
o infinito
é infinitamente
pra lá
não deveria haver algo
infinitamente
...pra cá?

Não
na outra
direção,
não
pra-lá-só-outra-opção
pra-lá-só-inversão.

Pra cá!

O contrário de pra lá
sem ser outro pra lá
só outra opção
é onde
então?

.
.
.

É
Aqui!
O contrário do infinito
sou eu
porque o infinito está lá
e eu tô aqui
só eu.

(Sem) Tempo

Não tenho paciência para poemas
que falam do eu
como esse poema que fala que eu
não tenho paciência para poemas
que falam do eu.

Mas abro aqui uma exceção
pra poder reclamar
um pouco do outro.

Poemas do eu não tenho paciência
Poemas do eu não gosto
Poemas do eu sinto, eu minto, eu gosto e desgosto
Do eu fui, eu vim
Poemas do eu nasci assim
Do me tornei, me virei, revirei, transformei
Vivi, sofri
Pensei, calei, observei
Enfim...

Poemas do eu, eu, eu e mais eu que não têm fim.

Nada contra quem quer falar de si
e de suas experiências
me perdoe, eu apenas não tenho paciência
pros seus poemas.

Nada contra vocês
até me solidarizo com seus problemas
quando são sobre eles os poemas
probloemas
problemaspoemas
só não tenho paciência
para os poemas.

E como cada um faz o que quer
(inclusive reclamar do outro)
acho que vale à pena reclamar um pouco
se isso ajudar
a
não
f
i
c
a
r

louco!